♀ “…єηtrє αs αℓєℓuiαs є αs αgσηiαs dє sєr…” ♀

“Eu vivo a deliciosa incerteza a cada instante. E exerço a defesa radical da liberdade absoluta, não tenho convicções inabaláveis.
Não tenho caminho certo, não ando por sobre um bloco de cimento frio, não gosto de muros, nem gosto de grades.
Eu decido se mudo ou se danço.
Mas adoro mudançar…
A instabilidade de uma corda de seda à beira do abismo me excita.
Eu não quero ordens – eu quero música.
Ninguém me prende, ninguém me dirige, ninguém me sufoca, não aceito invasões.
Não ponho meu rabo entre as pernas, não abaixo a cabeça.
Não estou à venda.
Jamais darei procuração para que alguém viva minha vida em meu nome.
Sou eu que faço as minhas escolhas.
Sou livre!”

NÃO PARECIA EU – Martha Medeiros

Já deve ter acontecido com você. Diante de uma
situação inusitada, você reage de uma forma que nunca imaginou, e ao fim do
conflito se pega pensando: que estranho, não parecia eu. Você, tão cordata,
esbravejou. Você, tão explosivo, contemporizou. Você, tão seja-lá-o-que-for,
adotou uma nova postura. Percebeu-se de outro modo. Virou momentaneamente outra
pessoa.

No filme Neblinas e Sombras (não queria dizer que é do
Woody Allen pra não parecer uma obcecada, mas é, e sou) o personagem de Mia
Farrow refugia-se num bordel e aceita prestar um serviço sexual em troca de
dinheiro, ela que nunca imaginou passar por uma situação dessas.

No dia seguinte, admite a um amigo que, para sua
surpresa, teve uma noite maravilhosa, apesar de se sentir muito diferente de si
mesma. O amigo a questiona: “Será que você não foi você mesma pela primeira
vez?”

São nauseantes, porém decisivas e libertadoras essas
perguntas que nos fazem os psicoterapeutas e também nossos melhores amigos, não
nos permitindo rota de fuga. E aí? Quem é você de verdade?

Viver é um processo. Nosso “personagem” nunca está
terminado, ele vai sendo construído conforme as vivências e também conforme
nossas preferências – selecionamos uma série de qualidades que consideramos
correto possuir e que funcionam como um cartão de visitas.

Eu defendo o verde, eu protejo os animais, eu luto
pelos pobres, eu só me relaciono por amor, eu respeito meus pais, eu não conto
mentiras, eu acredito em positivismo, eu acho graça da vida. Nossa, mas você é
sensacional, hein!

Temos muitas opiniões,
repetimos muitas palavras de ordem, mas saber quem somos realmente é do
departamento das coisas vividas. A maioria de nós optou pela boa conduta, e
divulga isso em conversas, discursos, blogs e demais recursos de autopromoção,
mas o que somos, de fato, revela-se nas atitudes, principalmente nas
inesperadas. Como você reage vendo alguém sendo assaltado, foge ou ajuda? Como
você se comporta diante da declaração de amor de uma pessoa do mesmo sexo,
respeita ou debocha?

O que você faria se
soubesse que sua avó tem uma doença terminal, contaria a verdade ou a deixaria
viver o resto dos dias sem essa perturbação? Qual sua reação diante da mão
estendida de uma pessoa que você muito despreza, aperta por educação ou faz que
não viu? Não são coisas que aconteçam diariamente, e pela falta de prática,
talvez você tenha uma ideia vaga de como se comportaria, mas saber mesmo, só na
hora. E pode ser que se surpreenda: “não parecia eu”.

Mas é você. É sempre 100% você. Um você que não
constava da cartilha que você decorou. Um você que não estava previsto no seu
manual de boas maneiras. Um você que não havia dado as caras antes. Um você que
talvez lhe assombre por ser você mesmo pela primeira vez.Imagem

VERSOS ÍNTIMOS – Augusto dos Anjos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

A IDADE E A MUDANÇA – Lya Luft

Mês passado participei de um evento sobre o Dia da Mulher.
Era um bate-papo com uma platéia composta de umas 250 mulheres de todas as raças, credos e idades.
E por falar em idade, lá pelas tantas, fui questionada sobre a minha e, como não me envergonho dela, respondi.
Foi um momento inesquecível…
A platéia inteira fez um ‘oooohh’ de descrédito.
Aí fiquei pensando: ‘pô, estou neste auditório há quase uma hora exibindo minha inteligência, e a única coisa que provocou uma reação calorosa da mulherada foi o fato de eu não aparentar a idade que tenho? Onde é que nós estamos?’
Onde não sei, mas estamos correndo atrás de algo caquético chamado ‘juventude eterna’. Estão todos em busca da reversão do tempo.
Acho ótimo, porque decrepitude também não é meu sonho de consumo, mas cirurgias estéticas não dão conta desse assunto sozinhas.
Há um outro truque que faz com que continuemos a ser chamadas de senhoritas mesmo em idade avançada.
A fonte da juventude chama-se “mudança”.
De fato, quem é escravo da repetição está condenado a virar cadáver antes da hora.
A única maneira de ser idoso sem envelhecer é não se opor a novos comportamentos, é ter disposição para guinadas.
Eu pretendo morrer jovem aos 120 anos.
Mudança, o que vem a ser tal coisa?
Minha mãe recentemente mudou do apartamento enorme em que morou a vida toda para um bem menorzinho.
Teve que vender e doar mais da metade dos móveis e tranqueiras, que havia guardado e, mesmo tendo feito isso com certa dor, ao conquistar uma vida mais compacta e simplificada, rejuvenesceu.
Uma amiga casada há 38 anos cansou das galinhagens do marido e o mandou passear, sem temer ficar sozinha aos 65 anos.
Rejuvenesceu.
Uma outra cansou da pauleira urbana e trocou um baita emprego por um não tão bom, só que em Florianópolis, onde ela vai à praia sempre que tem sol.
Rejuvenesceu.
Toda mudança cobra um alto preço emocional.
Antes de se tomar uma decisão difícil, e durante a tomada, chora-se muito, os questionamentos são inúmeros, a vida se desestabiliza.
Mas então chega o depois, a coisa feita, e aí a recompensa fica escancarada na face.
Mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no olhar que se percebe a tal juventude eterna.
Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco porque não existe plástica que resgate seu brilho.
Quem dá brilho ao olhar é a vida que a gente optou por levar.
Olhe-se no espelho…

POEMA EM LINHA RETA – Álvaro de Campos

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza. 

ECOLOGICAMENTE CORRETA

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Quando Samanta conheceu Roque, durante um verão na Bahia, foi um espetáculo. O homem parecia um deus de ébano manobrando aquela escuna enorme como se estivesse em um Fusca. Tudo começou depois que a paulista workaholic se permitiu tirar férias após três anos de trabalho estressante numa empresa de importação e exportação. Estava à beira de um ataque de nervos quando seu médico lhe receitou dez dias de natureza pura. Era isso ou embarcar numa futura ponte de safena. E lá se foi Samanta, muito a contra gosto, branca como leite, hibernar na pousada perdida de uma praia deserta.
Na primeira noite, ela se surpreendeu: o barulho do mar embalou seus sonhos por 14 horas seguidas. No segundo dia, meio sem saber o que fazer com tantas horas livres, resolveu explorar a região. Acabou descobrindo um passeio pelas ilhas da redondeza. Estava no cais aguardando para em barcar na escuna “Rompe Mundo” quando um braço de pescador surgiu à sua frente, oferecendo amparo para que ela não perdesse o equilíbrio. A atração entre ela e Roque foi mútua. Samanta sentiu um arrepio ao fazer contato com aquele corpo forte e se dutor. Com um sorriso alvo e simpático, Roque, o capitão, desejou a todos boas-vindas, puxou a âncora e partiu sem tirar os olhos dela. O passeio foi inesquecível. O sol, o céu, o mar, as ilhas, a caipirinha de pitanga, o coco, o peixe na brasa, o bronzeado, a aragem que vinha do mar, o balanço das on das. Ela estava se sentindo no paraíso.
Aos poucos, seu cotidiano em São Paulo tornou-se uma imagem turva no fundo da memória. Nada mais tinha importância a não ser aquele momento mágico que ela estava vivendo. Os dias que se seguiram não foram diferentes. Samanta deu início a um tórrido romance com o capitão, com direito a sexo no convés sob a luz da lua, peixinho assado na areia de uma praia deserta, amor na rede da varanda e até coco tirado do pé. Estava esquecida do tempo e do espaço quando chegou o dia de ela voltar para os números, faturas e índices.
De volta a São Paulo, continuou a se corresponder com o amado. Mas não agüentou de saudade e decidiu mandar uma passagem para o deus de ébano. Foi um desastre. A magia dos trópicos começou a se diluir no aeroporto. Toda a elegância, charme e sedução de Roque tinham ficado na Bahia. Em São Paulo, ele parecia inadequado, não casava com a rapidez da metrópole, era um peixe fora d’água.
Samanta tentou dourar a pílula. Saiu com ele para fazer compras, mas não havia Daslu que desse jeito. O cara combinava só com Havaianas, bermuda e camiseta. Qualquer coisa a mais ficava fora do tom. Além disso, ele não sabia se comportar socialmente e não tinha papo com os amigos dela. Na cama, o tesão foi diminuindo até acabar de vez, quando ele, encantado com os confortos do apartamento de Samanta, começou a trocar o sexo pela televisão.
Depois que Roque se foi, Samanta desabafou seu desencanto com uma amiga que viajava sempre em férias pelo Brasil. Ouviu que namoro regional é namoro regional. Tirar o cara do hábitat destrói a paixão. A amiga tinha aprendido isso anos atrás, quando se apaixonou por um peão em Barretos. Hoje, ela já sabe que mulheres metropolitanas são mais flexíveis a parques temáticos. Entram no jogo e brincam de mulher de peão ou de pescador. Mas o inverso não acontece: “Da próxima vez que você se apaixonar por um cara de outro reino, deixe ele lá, na terra da fantasia. Nunca traga para o seu mundo um príncipe porque ele vira sapo”, aconselhou a amiga.
Samanta, que tinha tomado gosto por férias, prometeu a si mesma que, caso rolasse alguma coisa no próximo réveillon, em Fernando de Noronha, agiria de forma ecologicamente correta: o que for de Noronha fica em Noronha. Romances da fauna e flora locais devem ser preservados e jamais retirados do seu ecossistema.

Patricya Travassos é atriz, apresentadora do programa “Alternativa Saúde”, do canal GNT, e autora do livro “Esse Sexo É Feminino!” (Editora Símbolo/ O Nome da Rosa, 120 págs.)

DUAS BOLAS, POR FAVOR – Danuza Leão

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Não há nada que me deixe mais frustrada do que pedir sorvete de sobremesa, contar os minutos até ele chegar e aí ver o garçom colocar na minha frente uma bolinha minúscula do meu sorvete preferido.

Uma só.

Quanto mais sofisticado o restaurante, menor a porção da sobremesa. Aí a vontade que dá é de passar numa loja de conveniência, comprar um litro de sorvete bem cremoso e saborear em casa com direito a repetir quantas vezes a gente quiser, sem pensar em calorias, boas maneiras ou moderação.

O sorvete é só um exemplo do que tem sido nosso cotidiano.

A vida anda cheia de meias porções, de prazeres meia-boca, de aventuras pela metade.

A gente sai pra jantar, mas come pouco.

Vai à festa de casamento, mas resiste aos bombons.

Conquista a chamada liberdade sexual, mas tem que fingir que é difícil (a imensa maioria das mulheres continua com pavor de ser rotulada de ‘fácil’).

Adora tomar um banho demorado, mas se contém pra não desperdiçar os recursos do planeta.

Quer beijar aquele cara 20 anos mais novo, mas tem medo de fazer papel ridículo.

Tem vontade de ficar em casa vendo um DVD, esparramada no sofá, mas se obriga a ir malhar.

E por aí vai.

Tantos deveres, tanta preocupação em ‘acertar’, tanto empenho em passar na vida sem pegar recuperação…

Aí a vida vai ficando sem tempero, politicamente correta e existencialmente sem-graça, enquanto a gente vai ficando melancolicamente sem tesão…

Às vezes dá vontade de fazer tudo ‘errado’.

Deixar de lado a régua,

o compasso,

a bússola,

a balança

e os 10 mandamentos.

Ser ridícula, inadequada, incoerente e não estar nem aí pro que dizem e o que pensam a nosso respeito.

Recusar prazeres incompletos e meias porções.

Até Santo Agostinho, que foi santo, uma vez se rebelou e disse uma frase mais ou menos assim: ‘Deus, dai-me continência e castidade, mas não agora’…

Nós, que não aspiramos à santidade e estamos aqui de passagem, podemos (devemos?) desejar várias bolas de sorvete, bombons de muitos sabores, vários beijos bem dados, a água batendo sem pressa no corpo, o coração saciado.

Um dia a gente cria juízo.

Um dia.

Não tem que ser agora.

Por isso, garçom, por favor, me traga:

cinco bolas de sorvete de chocolate,

um sofá pra eu ver 10 episódios do ‘Law and Order’,

uma caixa de trufas bem macias

e o Richard Gere, nu, embrulhado pra presente. OK?

Não necessariamente nessa ordem.

Depois a gente vê como é que faz pra consertar o estrago  . . .

LOUCOS E SANTOS – Oscar Wilde

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que “normalidade” é uma ilusão imbecil e estéril.

“A arte de ser louco é jamais cometer a loucura de ser um sujeito normal.” (Raul Seixas)

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